Umas lindas e muita porcaria
Postado em 21 de Julho de 2010 por Pedro Venâncio
A frase do título do texto descreve com fidelidade o que eu penso sobre a obra musical de Renato Russo, cuja morte completá 14 anos em outubro. Suas músicas, porém, continuam vivas e sempre encontram eco em adolescentes impacientes e indecisos, geralmente no momento em que eles descobrem que o universo musical é muito mais amplo do que o acervo dos pais ou os xuxexos da Xuxa.
Se estivesse vivo, o ex-líder da Legião Urbana teria, hoje, 50 anos e, em um exercício cretino de especulação, provavelmente estaria falando mal de alguém em entrevistas, ou fazendo shows com músicas novas para um público histérico, que, após a apresentação, iria embora frustrado por não ouvir “Que país é esse?”.
Nos últimos anos de sua vida, o punk-rock-adolescente-depressivo havia dado lugar a uma melancolia piegas, tipo auto-ajuda, presente em coisas terríveis como “Mais uma vez”, em que o vitimismo passa dos limites. E Renato Russo, definitivamente, adorava se fazer de vítima, principalmente quando estava junto da sua grande companheira dos tempos de fama: a cocaína.
Mas, assim como Cazuza, com o qual era sistematicamente comparado da maneira mais imbecil e dualista possível – nos anos 80, o maniqueísmo de puteiro era a lei, e cada artista tinha, quase que involuntariamente, a sua claque. Era quase um crime gostar dos dois, o ecletismo era extremamente mal visto -, Renato se tornou celebridade em uma época em que o cool era ser doidão. A febre rock and roll de Woodstock chegou ao Brasil com 15 anos de atraso.
Bissexual assumido desde 1989, enfrentou preconceitos, mas conseguiu ser o interlocutor de um pouco do seu universo particular de garoto tímido, de classe média e com alguma coisa a dizer – sem saber exatamente o que -.
Além disso, deu a sorte de encontrar uma mídia absolutamente aberta ao rock nacional, e uma juventude que estava com sua auto-estima completamente pisoteada pela ditadura militar. Um homem sincero, que, assim como Cazuza, expunha suas fraquezas e não tinha medo de enfrentar os filhos da puta que os reprimiam.
Entre suas músicas, algumas ficaram guardadas em minha memória pessoal, como “Índios”, e outras perderam a importância com o passar dos anos, deixando de fazer sentido para mim.
Ainda assim, deixar de reconhecer sua importância para o rock/pop nacional seria algo tão estúpido quanto algumas de suas letras, e isso é fácil de constatar.
A cada dia surgem novos fãs de Legião, adolescentes musicalmente órfãos, e ávidos por um novo “mártir do rock brasileiro”, posto que anda vago há algum tempo, e para o qual o maior candidato que surgiu até agora foi o skatista Chorão, que, convenhamos não pode ser levado muito a sério. Alguém mais se habilita?










Comentários (11):
carolina
04/09/2010 às 20:49
Concordo com as afirmações de Pedro Venâncio e acrescento: Hoje em dia a juventude vive uma certa apatia diante do caos social. A galera adolescente curti uma onda meio que " eu vou te esperar aonde quer que eu vá te levo comigo" e assim todo mundo espera e espera enquanto a sujeirada vai acontecendo debaixo do nosso nariz e praticamente ninguém faz nada. Sou muito mais a época em que a galera gritava que "país é esse" e " Brasil mostra a tua cara quero ver quem paga pra gente ficar assim". Quanto ao novo posto a ser ocupado eu só lamento!!! Mas a esperança existe visto que temos músicos talentosos(maranhenses).
ZuBHGaWaSmZ
26/08/2010 às 20:45
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Barney B.
04/08/2010 às 00:02
Você não entende nada de Renato Russo, cara.
@alaurinha
22/07/2010 às 14:11
Como eu disse, Legião nem é minha banda preferida. Meus primeiros acordes em um violão (lembrando que eu não sei tocar) foram de Gatinha Manhosa! hehehehehe Depois aprendi Metallica, mas isso é outra história. Realmente pareceu que Cazuza era mais importante. MAS SE NÃO FOI ESSE O CASO, "RE-LEREI" só pra tirar minha dúvida. O texto está muito bem escrito e eu gosto quando eu tenho uma opinião contrária ao bloggeiro! hehehehe É mais gostoso discutir o assunto. Realmente as músicas, no quesito MELODIA não são as minhas favoritas. Mas as letras, e essas são muito importantes, são as melhores. E o cara merece respeito por isso. Quanto ao fato de que, se fosse vivo, estaria por ai falando mal de alguma banda, é relativo. Ele morreu numa idade que, pra música, ainda era novo... De repente ele viraria um senhor respeitável, com opiniões mais "palatáveis" sobre as coisas, assim como todos os personagens "célebres" da música brasileira... Que não sabem mais fazer críticas, é todo mundo muito diplomático... Enfim. Respeito muito Renato Russo, apesar de achá-lo um tremendo pé no saco! ^^
Pedro Venancio
21/07/2010 às 21:48
Laura, tenho muita história com o Legião. Aprendi a tocar violão com as músicas deles, vivi o universo cantado pelo Renato Russo durante muito tempo. E ele tem coisas belíssimas, como fiz questão de ressaltar no texto. Em relação ao Cazuza ser mais importante do que ele, não coloquei isso no texto, peço desculpas se em algum momento isso ficou implícito. Não penso assim. Acho que o Renato Russo foi sim muito significativo na época dele, assim como acho, exatamente como disse no texto, que quando ele saiu do punk-rock-adolescente-depressivo, não conseguiu fazer algo legal. E as músicas dele são sim atemporais, embora isso não seja propriamente um atestado de qualidade (tem tanta coisa atemporal ruim por aí...)
Pedro Venancio
21/07/2010 às 21:39
George, sobre "Mais uma vez", foi um exemplo de muitos, ele cantou várias músicas que não eram dele no fim da carreira, todas numa linha parecida. O parágrafo foi nesse sentido, mas valeu pelo toque :) Andressa, tens o direito total de discordar, a divergência de opiniões é sempre bem vinda :)
@alaurinha
21/07/2010 às 20:31
Não concordo com quase nada do texto! ^^ Só concordo, talvez, com a antipatia do autor por Renato Russo. Assim como também tenho antipatia por CAZUZA, citado no texto como sendo "mais importante" que Renato. As realidades, a atual com a da época que as músicas do Legião foram feitas, são imensamente diferentes... "Que país é esse" é atemporal, e muitas outras músicas do legião (como "perfeição" e "índios") fala de sentimentos, indignação, juventude transviada. E o que dizer de "Geração Coca - cola"? Se a gente fizer algumas adaptações vira facilmente: "Geração Família - Restart". Renato Russo foi importante pra época, sem ele muitas bandas de Brasília não teriam a notoriedade que tem hoje. O rock brasileiro talvez nem tivesse evoluído LEGIÃO URBANA nem é minha banda brasileira predileta. Mas as tardes deitada na beliche escutando Legião junto com a minha irmã, essas eu não apago! É uma pena vc talvez não ter uma história com o Legião! ^^ ABRAÇOS!
Pedro Venancio
21/07/2010 às 20:27
George, sobre "Mais uma vez", foi um exemplo de muitos, ele cantou várias músicas que não eram dele no fim da carreira, todas numa linha parecida. O parágrafo foi nesse sentido, mas valeu pelo toque :) Andressa, tens o direito total de discordar, a divergência de opiniões é sempre bem vinda :)
Andressa
21/07/2010 às 19:20
Tudo bem que é a sua opinião, mas eu nao concordo muito(em partes) com o que vc disse sobre o Renato Russo. Enfim, nao vou escrever um texto aqui.
Joanna Arruda
21/07/2010 às 19:12
Pensei que só eu tivesse esse pensamento a respeito de Legião e Renato Russo! Ainda bem que é fase e a gente cresce..abre a cabeça pra outras coisas que realmente importam e fazem a diferença! Mas Venâncio, toma cuidado com a galera! hahaha ..abraço!
George GD
21/07/2010 às 18:43
Rapaz, não vou defender o Renato Russo, mas vamos atentar aos detalhes. "Mais Uma Vez" caso você não saiba é do Flávio Venturini e o RR só fez participação num disco dele. Só isso